PEDRA FILOSOFAL
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
(Poema escolhido por Margarida Ferreira)
sábado, 11 de julho de 2009
quinta-feira, 11 de junho de 2009
CATORZE VERSOS
O primeiro é assim: fica de parte.
No segundo já posso prometer
que no terceiro vai haver mais arte.
Mas afinal não houve... Que fazer?
Melhor será calar, pois que dizer
nem no sexto conseguirei destarte.
Os acentos errados é favor não ver;
nem os versos errados, que também sei hacer...
Ó nono verso por que vais embora
sem que eu te sublime neste décimo?
Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.
Errei-o. Mas que importa se a poesia,
mesmo que o não errasse, já não vinha?
É este o último e, como os outros, péssimo...
Alexandre O'Neill
(Poema escolhido por Sofia Sousa Rocha)
O primeiro é assim: fica de parte.
No segundo já posso prometer
que no terceiro vai haver mais arte.
Mas afinal não houve... Que fazer?
Melhor será calar, pois que dizer
nem no sexto conseguirei destarte.
Os acentos errados é favor não ver;
nem os versos errados, que também sei hacer...
Ó nono verso por que vais embora
sem que eu te sublime neste décimo?
Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.
Errei-o. Mas que importa se a poesia,
mesmo que o não errasse, já não vinha?
É este o último e, como os outros, péssimo...
Alexandre O'Neill
(Poema escolhido por Sofia Sousa Rocha)
segunda-feira, 11 de maio de 2009
GAIVOTA
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O'Neill
(Poema escolhido por Ricardo Camarinha)
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O'Neill
(Poema escolhido por Ricardo Camarinha)
sábado, 11 de abril de 2009
DO TEMPO
Deus nos pede do tempo estreita conta!
É preciso dar conta a Deus do tempo!
Mas como dar, do tempo, tanta conta,
Se se perde sem conta tanto tempo?!
Para fazer a tempo a minha conta,
Dado me foi, por conta, muito tempo,
Mas não cuidei no tempo e foi-se a conta…
Eis-me agora sem conta…eis-me sem tempo…
Ó vós, que tendes tempo e tendes conta,
Não o gasteis, por nunca, em passatempo,
Cuidai, enquanto é tempo, o terdes conta.
Ah! se quem esta conta de seu tempo
Tivesse feito a tempo, preço e conta,
Não chorava, sem conta, o não ter tempo.”
Frei Castelo Branco
(Poema escolhido por Ana Seara)
Deus nos pede do tempo estreita conta!
É preciso dar conta a Deus do tempo!
Mas como dar, do tempo, tanta conta,
Se se perde sem conta tanto tempo?!
Para fazer a tempo a minha conta,
Dado me foi, por conta, muito tempo,
Mas não cuidei no tempo e foi-se a conta…
Eis-me agora sem conta…eis-me sem tempo…
Ó vós, que tendes tempo e tendes conta,
Não o gasteis, por nunca, em passatempo,
Cuidai, enquanto é tempo, o terdes conta.
Ah! se quem esta conta de seu tempo
Tivesse feito a tempo, preço e conta,
Não chorava, sem conta, o não ter tempo.”
Frei Castelo Branco
(Poema escolhido por Ana Seara)
quarta-feira, 11 de março de 2009
SONETO DE FIDELIDADE
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes
(Poema escolhido por Diogo João Saramago)
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes
(Poema escolhido por Diogo João Saramago)
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
SORTIDO FINO
Quando me disponho
A navegar na poesia
Procuro sempre poemas
Curtos, daqueles que provocam
Uma emoção breve
Rápida como um arrepio
E logo passo a outro
Buscando mais uma emoção
E outro arrepio
Busco no poema a emoção
Como quem busca
O chocolate mais delicado
O recheio mais desconcertante
O sabor mais surpreendente
De entre vários
Numa caixa cheia de cores
Aromas, texturas, sabores
Há que debicar aqui
Ali e todos, para saber
Qual o que calma o palato
Qual satisfaz o gosto
Um após o outro vou descobrindo
O mais sensual, o menos doce
O mais aveludado, o menos rugoso
O mais areado, o menos áspero
O mais, o menos
Gosto de poemas curtos
Que num arrepio me provocam
Uma emoção rápida e pura
E logo procuro outro e mais outro
Em busca de mais um arrepio
E outra emoção
Sempre em busca
Da sensação, da emoção
Do poema que me sacie
Maria Paula Marques
(Poema escolhido por Tatiana Calvão Sousa)
Quando me disponho
A navegar na poesia
Procuro sempre poemas
Curtos, daqueles que provocam
Uma emoção breve
Rápida como um arrepio
E logo passo a outro
Buscando mais uma emoção
E outro arrepio
Busco no poema a emoção
Como quem busca
O chocolate mais delicado
O recheio mais desconcertante
O sabor mais surpreendente
De entre vários
Numa caixa cheia de cores
Aromas, texturas, sabores
Há que debicar aqui
Ali e todos, para saber
Qual o que calma o palato
Qual satisfaz o gosto
Um após o outro vou descobrindo
O mais sensual, o menos doce
O mais aveludado, o menos rugoso
O mais areado, o menos áspero
O mais, o menos
Gosto de poemas curtos
Que num arrepio me provocam
Uma emoção rápida e pura
E logo procuro outro e mais outro
Em busca de mais um arrepio
E outra emoção
Sempre em busca
Da sensação, da emoção
Do poema que me sacie
Maria Paula Marques
(Poema escolhido por Tatiana Calvão Sousa)
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