CATORZE VERSOS
O primeiro é assim: fica de parte.
No segundo já posso prometer
que no terceiro vai haver mais arte.
Mas afinal não houve... Que fazer?
Melhor será calar, pois que dizer
nem no sexto conseguirei destarte.
Os acentos errados é favor não ver;
nem os versos errados, que também sei hacer...
Ó nono verso por que vais embora
sem que eu te sublime neste décimo?
Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.
Errei-o. Mas que importa se a poesia,
mesmo que o não errasse, já não vinha?
É este o último e, como os outros, péssimo...
Alexandre O'Neill
(Poema escolhido por Sofia Sousa Rocha)
quinta-feira, 11 de junho de 2009
segunda-feira, 11 de maio de 2009
GAIVOTA
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O'Neill
(Poema escolhido por Ricardo Camarinha)
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O'Neill
(Poema escolhido por Ricardo Camarinha)
sábado, 11 de abril de 2009
DO TEMPO
Deus nos pede do tempo estreita conta!
É preciso dar conta a Deus do tempo!
Mas como dar, do tempo, tanta conta,
Se se perde sem conta tanto tempo?!
Para fazer a tempo a minha conta,
Dado me foi, por conta, muito tempo,
Mas não cuidei no tempo e foi-se a conta…
Eis-me agora sem conta…eis-me sem tempo…
Ó vós, que tendes tempo e tendes conta,
Não o gasteis, por nunca, em passatempo,
Cuidai, enquanto é tempo, o terdes conta.
Ah! se quem esta conta de seu tempo
Tivesse feito a tempo, preço e conta,
Não chorava, sem conta, o não ter tempo.”
Frei Castelo Branco
(Poema escolhido por Ana Seara)
Deus nos pede do tempo estreita conta!
É preciso dar conta a Deus do tempo!
Mas como dar, do tempo, tanta conta,
Se se perde sem conta tanto tempo?!
Para fazer a tempo a minha conta,
Dado me foi, por conta, muito tempo,
Mas não cuidei no tempo e foi-se a conta…
Eis-me agora sem conta…eis-me sem tempo…
Ó vós, que tendes tempo e tendes conta,
Não o gasteis, por nunca, em passatempo,
Cuidai, enquanto é tempo, o terdes conta.
Ah! se quem esta conta de seu tempo
Tivesse feito a tempo, preço e conta,
Não chorava, sem conta, o não ter tempo.”
Frei Castelo Branco
(Poema escolhido por Ana Seara)
quarta-feira, 11 de março de 2009
SONETO DE FIDELIDADE
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes
(Poema escolhido por Diogo João Saramago)
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes
(Poema escolhido por Diogo João Saramago)
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
SORTIDO FINO
Quando me disponho
A navegar na poesia
Procuro sempre poemas
Curtos, daqueles que provocam
Uma emoção breve
Rápida como um arrepio
E logo passo a outro
Buscando mais uma emoção
E outro arrepio
Busco no poema a emoção
Como quem busca
O chocolate mais delicado
O recheio mais desconcertante
O sabor mais surpreendente
De entre vários
Numa caixa cheia de cores
Aromas, texturas, sabores
Há que debicar aqui
Ali e todos, para saber
Qual o que calma o palato
Qual satisfaz o gosto
Um após o outro vou descobrindo
O mais sensual, o menos doce
O mais aveludado, o menos rugoso
O mais areado, o menos áspero
O mais, o menos
Gosto de poemas curtos
Que num arrepio me provocam
Uma emoção rápida e pura
E logo procuro outro e mais outro
Em busca de mais um arrepio
E outra emoção
Sempre em busca
Da sensação, da emoção
Do poema que me sacie
Maria Paula Marques
(Poema escolhido por Tatiana Calvão Sousa)
Quando me disponho
A navegar na poesia
Procuro sempre poemas
Curtos, daqueles que provocam
Uma emoção breve
Rápida como um arrepio
E logo passo a outro
Buscando mais uma emoção
E outro arrepio
Busco no poema a emoção
Como quem busca
O chocolate mais delicado
O recheio mais desconcertante
O sabor mais surpreendente
De entre vários
Numa caixa cheia de cores
Aromas, texturas, sabores
Há que debicar aqui
Ali e todos, para saber
Qual o que calma o palato
Qual satisfaz o gosto
Um após o outro vou descobrindo
O mais sensual, o menos doce
O mais aveludado, o menos rugoso
O mais areado, o menos áspero
O mais, o menos
Gosto de poemas curtos
Que num arrepio me provocam
Uma emoção rápida e pura
E logo procuro outro e mais outro
Em busca de mais um arrepio
E outra emoção
Sempre em busca
Da sensação, da emoção
Do poema que me sacie
Maria Paula Marques
(Poema escolhido por Tatiana Calvão Sousa)
domingo, 11 de janeiro de 2009
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
HISTÓRIA ANTIGA
Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.
Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
Miguel Torga
(Poema escolhido por Margarida Nery)
Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.
Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
Miguel Torga
(Poema escolhido por Margarida Nery)
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